Primeiro Encontro – Parte 2

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Primeiro Encontro - Parte 2

Niane não se surpreendeu ao ver que a arena mais próxima estava deserta. Ao seu lado, a novata olhou ao redor, parecendo surpresa. Ah, provavelmente estava reparando em como ninguém os acompanhara. Era simples: nenhum dos mercenários queria provocá-la depois da última luta. Se ela não havia falado que queria uma audiência, ninguém iria assistir àquela luta.

Pobre novata. Se tinha alguma esperança de ganhar nome com isto, estava perdendo tempo.

Sem dizer nada, elas entraram na arena e foram até o centro da área de luta. Os escudos se fecharam ao redor e acima delas, para garantir que nada que fizessem ali atingisse algum espectador ou o restante da cidade.

— Regras? — Niane perguntou. Deixaria que a novata definisse os limites daquele duelo, pelo menos.

— Luta limpa e escudos pessoais. Vitória simples, sem direito a ferimentos graves. — ela respondeu, sem hesitar.

Niane assentiu. Aquelas eram as regras padrão. A novata estava confiante.

— Qual o seu nome, novata? — ela perguntou.

— Isso importa?

Niane sorriu.

— Gosto de saber o nome das pessoas que derroto.

A outra mulher estreitou os olhos, antes de sorrir de forma gelada, inclinando a cabeça.

— Jiaira.

— Então boa sorte, Jiaira. — Niane assentiu novamente, recuando dois passos e afastando o braço direito do corpo enquanto fechava o punho esquerdo.

A novata recuou um passo, inclinando o pescoço para um lado e depois para o outro antes de erguer os braços, com o direito um pouco a frente. Niane sorriu, reconhecendo aquela postura. A novata lutava com espadas, também. Aquela posição não era muito comum, o que dizia que ela tinha mais treinamento que a maioria dos novatos que chegava ali, e que provavelmente tinha algum poder que podia ser usado em conjunto com as espadas.

Sem dar tempo para que ela se preparasse, Niane saltou na direção da novata, fazendo sua espada surgir em sua mão direita no meio do movimento. A lâmina brilhou suavemente na luz da arena, antes de ser contida pelas espadas simples e idênticas da outra mulher. Bons reflexos.

A novata forçou a espada de Niane para cima, enquanto soltava uma das suas armas e a girava na direção da sua cintura. Niane girou, se afastando e aproveitando o movimento para ganhar impulso para o golpe seguinte. Sabia que era rápida demais para que conseguissem parar o movimento, mas uma das espadas de Jiaira encontrou a sua a meio caminho do giro. Surpresa, Niane hesitou por um instante, o suficiente para sentir uma lâmina tocando sua perna. Se não fosse uma luta limpa, ela já estaria em desvantagem, com mobilidade comprometida.

Então a novata tinha seus truques. Bom. Talvez ela fosse uma adversária que valeria a pena, para variar. Isso queria dizer que ela não iria mais se conter.

As duas mulheres se afastaram. Niane sorriu, observando a postura da outra. Ainda na defensiva. Excelente, porque agora ela precisaria se defender bem.

Niane avançou novamente, desta vez usando o controle para ser ainda mais rápida. Sua espada brilhou com uma luz vermelha antes de se chocar com as de Jiaira novamente, que pulsaram com uma luz violeta por um instante antes de se separarem.

A novata sorriu enquanto se movia mais depressa do que deveria ser capaz. As lâminas se chocavam e se afastavam, sem que nenhuma das duas mulheres conseguisse alguma vantagem sobre a outra. As tatuagens espalhadas pelo lado esquerdo do corpo de Jiaira começaram a pulsar no mesmo ritmo em que suas espadas se encontravam. Niane vacilou por um instante, sem entender aquilo, e isto era tudo o que a outra mulher precisava para avançar.

Quando Niane deu por si, estava recuando diante do ataque da novata, que se movia de uma forma que simplesmente não era possível. Suas espadas se chocavam com tanta força que os escudos ao redor da arena tremiam a cada golpe. Respirando fundo entre golpes, Niane deixou todo o seu poder fluir, toda a força que era sua por direito. O brilho ao redor da sua espada se tornou mais forte, e sua mão e braço esquerdos também foram envolvidos pela luz vermelha enquanto ela tentava acertar a outra mulher de qualquer forma que fosse possível.

Mas a novata simplesmente não estava onde deveria estar – e agora o lado esquerdo do seu rosto começava a brilhar com linhas violeta também. Suas espadas se encontravam cada vez mais depressa, com mais força, até que se tornou impossível pensar em qualquer movimento: Niane deixou os instintos treinados nela desde criança tomarem o controle. Ainda assim, a novata a encontrava golpe por golpe, e não voltou para a defensiva. A luz violeta continuava a pulsar, e agora a cada vez que ela brilhava Jiaira se tornava uma imagem indistinta, borrada, como se houvesse várias dela ali.

Ilusionista. Niane teve um instante para entender o que estava acontecendo, e então uma das espadas da outra mulher estava na sua garganta. Ela se moveu para escapar, mas a luz violeta brilhou novamente e ela foi jogada longe. O brilho vermelho ao seu redor desapareceu quando ela bateu no escudo ao redor da arena, desorientada por um instante.

Ofegante, Niane encarou a novata – Jiaira – sem entender como tinha sido derrotada. Não deveria ser possível. Ela podia não ser a melhor guerreira ali, mas havia sido treinada pelos keryl e por sua mãe. Como era possível? Estreitando os olhos, ela encarou a outra mulher, que ainda estava em posição, como se esperasse que ela atacasse novamente. Mas agora estava com mais curiosidade que vontade de lutar.

Os traços de Jiaira não eram comuns a nenhuma raça, até onde ela conseguia se lembrar. Os traços largos do seu rosto lembravam um pouco os de alguns dos povos antigos, mas ela era alta demais para ser deles, sem mencionar que sua pele era pouco mais escura que a de Niane, muitos tons mais clara que a dos povos antigos. E além disso, aquelas tatuagens não eram só tatuagens. Agora ela conseguia ver as linhas no rosto da mulher, também, e não só no braço e tronco. As marcas tinham brilhado quando Jiaira atacou, mas Niane não conhecia nenhum povo que tivesse aquelas características. Era um pouco parecido com as linhas que cobriam o corpo dos c’erit, mas no caso deles as linhas brilhavam com uma luz azulada o tempo todo. Aquela luz violeta…

Niane inclinou a cabeça para o lado. Violeta. Seu próprio poder era visível em tons de vermelho, e o dos c’erit não era tão diferente assim, apesar das marcas azuis pelo corpo. Mas violeta… Violeta era uma mistura. O que só deixava uma explicação para aquelas marcas.

— Jiaira Ithar. — ela murmurou.

— Diga esse nome de novo e eu te mato. — a outra respondeu.

Niane sorriu. Deveria ter imaginado. Se uma Ithar estava ali e não sabia exatamente quem ela era, era porque estava evitando sua família.

— Seu segredo está a salvo. — ela estreitou os olhos mais uma vez. — Mas não tenha tanta certeza assim de que conseguiria me matar.

Jiaira riu, fazendo suas espadas desaparecerem. Niane assentiu antes fazer o mesmo, e as duas saíram juntas da arena. Não havia ninguém esperando ali fora, também. Ainda estavam com medo dela. Niane balançou a cabeça, sorrindo, antes de se virar para a novata. Ela podia ser uma Ithar, podia ter conseguido vencer, mas continuava sendo uma novata. Mesmo assim…

— Quer uma cerveja?

A outra mulher se virou para ela e ergueu uma sobrancelha. Niane deu de ombros.

— Claro. — Jiaira sorriu.

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