Profecia

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Esta cena se passa pouco mais de um século antes de Sentinela. Para quem leu o livro, talvez se lembrem da Krisla contando para Aíla que teve uma visão envolvendo Aldaron. Bom, eis a cena da visão. Para quem está acompanhando a série, acho que dá para entender melhor as decisões de Aldaron.


Krisla, Arqui-Guardiã responsável pela Zona Proibida, uma das mulheres mais temidas na Ordem dos Guardiões, acordou com um sobressalto. Com mãos trêmulas, ela afastou as mechas de cabelo longo e negro que tinham caído em seu rosto suado. Estava arfando, seu coração disparado como se estivesse fugindo de um pesadelo. Mas o que acontecera era muito pior.

Respirando fundo, ela se virou e tocou o comunicador ao lado da cama, seus dedos digitando o código da pessoa que procurava de forma automática. O ruído suave de um toque, e então uma voz masculina familiar falava.

— Krisla, o que houve?

— Escuridão e sangue. — ela falou, as palavras arranhando sua garganta seca.

— O quê?

— Escuridão e sangue… E você. — sua voz tremeu na última palavra, sem que ela conseguisse evitar.

— Estou indo.

O homem desconectou a chamada, e ela soltou um suspiro aliviado. Era quase como se uma compulsão a impedisse de falar, de contar o que vira. Mas agora que Aldaron sabia, ele não deixaria que ela se esquecesse de novo. Não deixaria que fizessem com que ela se esquecesse.

Ainda tremendo, ela se sentou. Precisava se controlar, mas não sabia nem mesmo como fazer isto. Não depois do que acontecera.

Aldaron a encontrou sentada na beira da cama, balançando para frente e para trás de olhos fechados, em um movimento nervoso que ele não a via fazer desde muito criança. Suspirando, preocupado, o homem se sentou ao lado dela e a puxou para um abraço. Se lembrando das vezes em que segurara a mãe da mulher, em situações muito parecidas, ele esperou. Ela precisava de tempo para se acalmar.

Alguns minutos depois, Krisla se endireitou. Recuperara um pouco de controle, mas seu rosto ainda mostrava as marcas do medo.

— Foi assim com minha irmã. — o homem falou, sua voz grave soando suave. — Em sonhos, também. Ela acordou assustada, mais assustada do que em qualquer outro momento de sua vida. E então já sabia o que fazer.

A mulher respirou fundo, as palavras a acalmando de uma forma que nada mais conseguiria. Uma lembrança de que o dom da previsão estava entranhado na sua linhagem, na sua família.

— Sua mãe também. — ele continuou. — Apesar de ela ter apenas as visões mais fracas, imediatas. Mas eram muito mais constantes.

Ela assentiu de leve, antes de se virar para encarar o homem. O rosto aristocrático e enganadoramente jovem, assim como seu corpo sempre em plena forma, faziam com que quase todos na Ordem não acreditassem que ele realmente fosse Aldaron Táiran. Possivelmente o homem mais velho ainda vivo, ele lutara contra os airenis ao lado de sua irmã, Dane’en, que se tornara uma lenda. Treinara a sobrinha, Kara, assim como as tropas que lhe eram leais, os tairi’alen e aqueles que mais tarde se tornaram os primeiros Guardiões. E, agora, cuidava de sua sobrinha-neta, apesar de que ninguém imaginaria o parentesco entre eles.

— Não é a primeira vez. — Krisla falou. — Mas é como se algo estivesse me fazendo esquecer, embolando meus pensamentos.

E ela nem mesmo havia percebido isto até começar a falar.

— O que você viu?

Ela balançou a cabeça, sem saber como colocar em palavras. Quanto mais pensava, mais a visão parecia escapar entre seus dedos, se tornando uma massa confusa de sons e imagens.

— Escuridão. — Aldaron falou, sua voz soando carregada de poder.

A mulher conteve um arrepio e todos os seus músculos se retesaram antes que começasse a falar, sua voz soando vazia e mecânica, seus olhos perdidos na distância, fixos em algo que só ela podia ver.

— Deveria haver luz. Mas até mesmo as estrelas estão distantes. Se apagando. Há apenas escuridão dentro de escuridão, força a ser utilizada. Está escuro, muito escuro, não consigo ver. As pessoas fogem. Nem mesmo os assassinos querem estar por perto disto.

Ela se calou com um soluço, fechando os olhos como se pudesse escapar da visão. Seu corpo gelado tremia incontrolavelmente, e a mulher voltou a balançar para frente e para trás enquanto sua garganta se mexia.

— Sangue. — Aldaron tornou a falar, segurando a mulher com cuidado.

Krisla ficou imóvel por um instante, antes de um grito estrangulado escapar.

— Está em toda parte. Todos mortos. Dilacerados. Linas está em ruínas. Os corpos caídos, o sangue pintando as paredes. O Sistema Loiden caiu, Airen foi destruído. Não resta nada, nada além de sangue e escuridão… E fome.

— Quem causou isto?

— Escuridão dentro da escuridão. — sua voz quebrou em um soluço. — A menos que você a segure com as próprias mãos.

As lágrimas vieram, sem controle, enquanto a mulher tremia. Aldaron a encarou por um instante, se lembrando da única vez em que tinha visto alguém reagir desta forma a uma previsão. Sua irmã, em meio à guerra, logo antes de se sacrificar. E ele esperava, com todas as suas forças, que esta visão não terminasse em um sacrifício, também.

E, que, se fosse para alguém se sacrificar, que fosse ele e não Krisla. Ela merecia uma chance de viver sem as sombras do passado a arrastando.

— Volte, Krisla. — sua voz estava carregada de poder, mais uma vez, e a mulher se empertigou, abrindo os olhos que agora estavam vermelhos.

— Não consigo me lembrar. — ela murmurou. — Espero que tenha sido o suficiente.

— Eu me lembrarei. — ele falou.

Ele se lembraria, e agiria quando fosse a hora.

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